quinta-feira, 8 de julho de 2010

WINNICOTT E MELANIE KLEIN: ENCONTROS E DESENCONTROS, CONCORDÂNCIAS E DISCORDÂNCIAS




















Autor José Outeiral

Médico, Psicoterapeuta, estudioso das Obras de Winnicot

www.joseouteiral.com


INTRODUÇÃO

A questão das dimensões no universo psicanalítico sempre interessou (e mesmo fascinou) aos praticantes da psicanálise, como herança deixada por Freud com tantos cismas em sua vida científica, envolvendo discípulos nobres como Adler, Yung e Ferenczi, entre outros. São pais e irmãos se desentendendo e mesmo se digladiando, deixando a nós filhos científicos surpresos, atônitos ou mesmo estupefatos, ao esperar dos pais acima de tudo compreensão, tolerância e boa convivência.

A cisma Winnicott x Klein deixou um rastro não menor que os de Freud, como confirmam os inúmeros trabalhos publicados sobre este tema desde que se iniciou o boom Winnicottiano na década de 90. Assim, só no Congresso Latino-Americano sobre o Pensamento Winnicottiano de 1994, em Gramado, tivemos vários temas-livres sobre esta questão. Diga-se, a bem da verdade, que o assunto vem sendo debatido apenas pelos Winnicottianos, já que os kleinianos continuam a só escrever sobre os temas e questões diretamente vinculados a seu grupo. Vejo o assunto repercutir para nós winnicottianos como se fosse uma luta, uma porfia, entre o pai (Winnicott) e a mãe de origem (Klein), como um desentendimento sem fim, já que ela não quis nunca uma conciliação.

Já tendo escrito sobre o tema em 1989, tento agora neste trabalho dar uma visão mais atual do mesmo, inclusive em razão da publicação de um importante manuscrito de Klein, ao mesmo tempo em que trago novos dados biográficos de Klein e de Winnicott que poderão lançar mais luzes sobre a questão.

Winnicott era ainda um analista jovem quando conheceu Melanie Klein. Ela era cerca de 10 anos mais velha do que ele e tinha recém-chegado a Londres quando ele a procurou por indicação de seu analista pessoal, James Strachey, que lhe disse: “Se você trabalha com crianças vá ver Melanie Klein que neste assunto ela é fundamental”. Eles se encontraram e se simpatizaram mutuamente, tornando-se ele seu supervisando. Coloca Brett Kahr, um dos biógrafos de Winnicott, a este respeito:

Pouco antes de Winnicott e Melanie Klein terem se conhecido, morreu a mãe de Winnicott. Ele tinha apenas 29 anos. “Em qualquer caso se pergunta desde logo, se a conjunção tão próxima da morte da Sra. Winnicott e o posterior aparecimento da Sra. Klein – de tão generoso peito – pode ajudar a explicar a atração por Klein, em um nível mais infantil... Sem ter em conta as motivações mais profundas, Winnicott, sem dúvida, contemplava o trabalho clínico de Klein e suas teorias psicanalíticas com a máxima admiração, durante este período de seu desenvolvimento profissional”[1].

Continua Kahr: “As observações de Klein sobre a vida mais precoce da criança entusiasmaram muito a Winnicott, e suas idéias lhe ofereceram tanto confirmação de sua própria investigação através da observação como inspiração para seus posteriores estudos”. E, nas próprias palavras de Winnicott: “Passei a aprender algo da enorme quantidade de coisas que encontrei que ela já sabia... era capaz de voltar sobre cada detalhe do trabalho da semana, com cada paciente, sem olhar as anotações. Recordava meus casos e meu material analítico melhor que eu mesmo” (Winnicott, 1962).

Assim, tudo indica que esta fase da supervisão de Winnicott foi uma longa lua-de-mel para os dois. Inclusive Klein indicou Winnicott para fazer a análise do seu filho Eric sob a supervisão dela própria, situação esdrúxula que Winnicott não aceitou. Quando terminou esta análise, Klein escreveu a Winnicott: “Não sei se posso comunicar o quanto me sinto grata por tudo que o Sr. fez por Eric” O fato é que Winnicott usou os importantes insights de Melanie Klein sobre os primeiros meses de vida da criança (fase esquizo-paranóide e depressiva, voracidade, forças eróticas e sádicas, relação infantil com o peito materno) para elaborar suas próprias teorias centradas na pessoa da mãe e na relação entre os dois: holding, mãe suficientemente boa, preocupação materna primária, mãe ambiente e mãe objeto, etc. Já Klein centrou-se quase totalmente na figura do bebê e no seu potencial instintivo como se a mãe não se comportasse como um partenaire ativo da relação. Esta modificação de enfoque, nunca foi perdoado por Klein com seu pensamento absolutista e nem por muitos kleinianos que consideram Winnicott até hoje, com uma pecha de desprezo, como um “ambientalista”.

É fato corrente que Winnicott desejou ser analisado por Klein e que esta todavia recusou seu pedido e o encaminhou para Joan Riviere, uma importante discípula sua que escreveu, entre muitos trabalhos, um intitulado “Uma Contribuição a Análise da Reação Terapêutica Negativa”, que se tornou um clássico da psicanálise.

Foi uma análise difícil para Winnicott em virtude do temperamento do Riviere, impositiva (como Klein), uma mulher altíssima, matrona (Grosskurt), aterradora (Ricroft), que inclusive fazia críticas ácidas públicas a seu analisando durante reuniões várias. Sobre isto disse Winnicott um dia a um colega: “Não posso dizer que estive em análise com Joan Riviere. É certo, no entanto, que ela me analisou durante uns 10 anos. E continuou me analisando durante discussões em reuniões científicas”. (Khan, 1988).

Quando Winnicott, anos depois, quis preparar uma homenagem a Riviere pela data do seu aniversário de 75 anos, sem o seu conhecimento, ela lhe escreveu uma carta chamando-o de irresponsável e dizendo que ele e ela iriam posar para as pessoas como dois idiotas. Em resposta Winnicott escreveu a Riviére dizendo simplesmente: “Por uma razão ou outra creio que você está demasiadamente sensível”. “A festa foi realizada, ela compareceu e escreveu nova carta para ele enviando seus mais sinceros agradecimentos e dizendo que a festa foi para ela” uma das recordações mais memoráveis”.

Nesta festa de missivas que caracterizava a psicanálise britânica, Winnicott escreveu a Riviére pedindo que reconhecessem (os kleinianos) qualquer contribuição sua:

“Após o trabalho da Sra Klein você e ela conversaram comigo e de um modo amistoso você me deu a entender que ambas estavam absolutamente certas de que eu não tinha nenhuma contribuição positiva a fazer para a interessante tentativa que Melanie está fazendo todo o tempo para estabelecer a psicologia dos estados precoces. Você concordará que o problema é que sou incapaz de reconhecer que Melanie Klein disse as mesmas coisas que eu estou dizendo a ela. Em outras palavras, que há um bloqueio em mim... Eu quero lhe dizer que não aceito o que você e Klein insinuaram, principalmente que minhas considerações sobre o estabelecimento da psicologia da infância precoce são baseadas mais em fatores subjetivos que objetivos”.

Em outro momento ele escreve uma carta a própria Melanie Klein, que já começa a ficar famosa pela sua clareza e oportunidade do seu conteúdo:

“Eu pessoalmente, penso que é muito importante que o seu trabalho seja apoiado por pessoas que o descubram através dos seus próprios caminhos e apresentem estas descobertas em suas linguagens. É somente desta forma que a linguagem permanecerá viva. Se você estipula que no futuro somente a sua linguagem será usada para o estabelecimento das descobertas de outras pessoas, então a linguagem se tornará uma linguagem morta... Como já acontece na Sociedade (..) Eu estou preocupado com esta posição, que pode ser chamada de kleiniana, a qual acredito ser o perigo real para a difusão do seu trabalho. Suas idéias somente viverão se elas forem descobertas e reformuladas por pessoas originais no movimento psicanalítico e fora dele. (...) o perigo é (...) que a sua facção desenvolva um sistema baseado na defesa da posição conquistada pelo pesquisador original, neste caso você mesma (..).

Winnicott – escreve Kahr – conhecia o mundo externo no modo como facilitava ou inibia a mente infantil. Desta forma, ameaçava muito os primeiros kleinianos que só sabiam trabalhar com uma ênfase total sobre o mundo interno. Assim, ele disse um dia a Riviére: “Vou escrever um livro sobre o ambiente”. E ela: “Escreve este livro e eu te farei um sapo”. Deste modo ele se transformou de príncipe (herdeiro de Klein) em sapo e ela de princesa em bruxa, diz Kahr

Sem dúvida, o trabalho mais completo sobre a vida e a obra de Melanie Klein é o livro de Phyllis Gross Kurt, que investigou várias fontes bibliográficas in locum e entrevistou inúmeros analistas e outras pessoas que conheceram Melanie Klein mais de perto, inclusive Claire Winnicott que foi analisanda de Klein. Ela retrata o clima de lua-de-mel entre os dois e publica várias cartas de Klein a Winnicott das suas boas fases, entre várias perdas e embates que Klein sofreu na vida, falando de viagens, de decepções com a Sociedade de Psicanálise e dos medos da velhice.

Sobre Winnicott escreve Kurt: “Quase todo mundo emprega a palavra duende para defini-lo . Para Betty Joseph, ele tinha algo de Peter Pan. Charles Rycroft classificou-o de “carismático”. Ela também disse que embora Klein fosse sem dúvida alguma uma primadona, Winnicott era um “criptoprimadona”, embora parecesse um homem humilde, apesar de sua grande experiência. No final de uma supervisão ele agradecia ao aluno por ajudá-lo... Quando estudante, aprendera com Lord Horner a ouvir seus pacientes... Segundo John Padel, a maior força de Winnicott era que ele sempre contava com o paciente para fornecer o máximo de explicações sobre si mesmo, em vez de confiar em suas próprias especulações... Poderiam duas pessoas serem mais diferentes que Donald e Melanie Klein? Como ele poderia acreditar em agressividade inata e em instinto de morte?” E, acrescento eu, como poderiam ter uma mesma visão do homem e do processo analítico, sendo este decorrente basicamente da forma de se ver a vida?

Contudo, Cliford Scott afirma que, a sua maneira, Klein também era muito humilde porque sabia que ainda tinha muito a aprender. Creio que ela gostava de sua ignorância, diz ele: “Talvez a diferença entre eles fosse que Winnicott se mostrava disposto a aprender com os outros, enquanto Klein tinha que aprender tudo por si mesma”.

Quando a definiu como “uma gritadora de Eurecas”, Winnicott estava se referindo a tendência dela para encarar cada insight como a verdade suprema.

Gross Kurt continua seu importante livro sempre mostrando admiração por Klein, pela sua capacidade de luta, seu espírito indomável, porém acentuando as várias perdas que teve ao longo da vida (o marido de quem se separou e que depois morreu sua irmã Emile, seu filho Hans). Podemos ainda citar a perda de sua filha mais velha Melita, psicótica, médica, que depois se tornou psicanalista e que passou a criticar abertamente a mãe em todas as sociedades psicanalíticas que contatava, sua pessoa e sua obra de uma maneira torpe e pejorativa.

Em 1942, Winnicott ainda era considerado um kleiniano, mas ao longo da guerra e depois, as relações foram se estremecendo até que em 1951, quando da feitura do seu trabalho sobre “Objetos e fenômenos transicionais” Klein não o aceitou para ser publicado num novo livro kleiniano e Winnicott saiu desconsolado da reunião com os originais debaixo do braço. Klein lhe dissera que o trabalho não tinha nada de relevante a acrescentar a psicanálise. Logo este trabalho que viria a lhe trazer um reconhecimento mundial.

Depois deste incidente ele continuou a lamentar os desentendimentos com Klein, porém esta se mostrava cada vez mais indiferente a ele, inclusive quando ele se tornou Presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, por duas vezes.

Todos sabemos sobre a ênfase que Melanie Klein deu a análise da inveja, para ela um trabalho fundamental na análise de todos nós. Ela via a inveja como algo inato, uma manifestação do instinto de morte. Escreve Kurt: “Ela fez uma distinção cuidadosa de inveja, cobiça e ciúme. A inveja é o sentimento irritado de que outra pessoa possui e desfruta de alguma coisa desejável, sendo o impulso invejoso o de toma-la e estragá-la. A cobiça (voracidade) é um desejo insaciável e, num nível inconsciente, expressa-se na fantasia de devorar completamente o seio. O ciúme provém mais de perder o que se possui. O fato de que ela tenha tão pouco a dizer a respeito do ciúme sexual é indicativo de sua ênfase no objeto introjetado, e não na estrutura tripla da relação edipiana. A cobiça difere significativamente da inveja, porque seu objetivo é a introjeção destrutiva, ao passo que a inveja, em seu nível mais profundo, busca destruir a criatividade do objeto... A inveja é excessiva quando os traços esquizo-paranóides são fortes, dizia Melanie Klein.”

Gross Kurth, com sua grande cultura analítica, sobre a posição de Winnicott diante destes conceitos de Klein, continua:

“Winnicott nunca se sentira satisfeito com a posição esquizo-paranóide e a exposição da inveja primitiva feita por Klein parecia levá-la a um ponto ainda mais extremo. Para Winnicott, a criança não existia ex-vácuo: a relação mãe-filho preenchia qualquer consciência do self...

O conceito de inveja formulado por Klein subentendia sentimentos extremamente complexos no bebê; e ele simplesmente não podia aceitar nenhuma descrição do bebê que ignorasse o comportamento da pessoa que cuidava dele. Ele estava disposto a aceitar a inveja como um componente numa situação em que a mãe agisse com a criança de forma “torturante”. Com isso ele queria dizer uma situação em que o comportamento da mãe fosse incoerente e, percebendo que a bondade lhe estava sendo negada, de tempos em tempos, a criança entrava num processo de desilusão”.

Quando Melanie Klein publicou o seu famoso livro “Inveja e Gratidão” lustrou-o com casos clínicos e, diz Gross Kurth: “É possível que Heimann fosse uns dos relatos de caso no artigo sobre a inveja e que ela não só se ressentisse do que diziam a seu respeito, mas temesse que a identificassem como a mulher com “fortes traços depressivos e esquizóides”. E, continua Kurt “muitas pessoas falaram do encanto e da vivacidade de Heimann”. Deve ter sido terrível para ela ter sido eliminada do grupo a que pertencia através de uma carta seca, breve e lacônica de Klein, sem qualquer chance de reconciliação.”

“Analistas kleinianos teorizavam que a inveja desempenhou um papel importante na ruptura entre Klein e Heiman. Aparentemente, a suposição foi a de que a inveja foi de Heimann. Não há a menor dúvida que Heimann era ambiciosa e se ressentia de sua subserviência a Klein – “escravidão”, definiu ela para Pearl King... Mas a inveja que Klein sentia de Heimann? Heimann era mais nova do que Klein, muito estimada e considerada brilhante. Klein criticou bastante o artigo sobre contratransferência da autoria de Heimann, o qual fora imediatamente aclamado como um clássico.”

Winnicott, assistindo toda esta gigantesca controversa, deu apoio a Hermann, visivelmente deprimida, e convidou-a a participar de um grupo de seminários clínicos, em sua residência, que ela aceitou e permaneceu por um longo período.

Continua Kurt, Klein forneceu um relato eficiente das defesas erguidas pelo ego para os danos causados pela inveja. As pessoas dotadas de um alto grau de inveja tendem a idealizar seus objetos... O ciúme também é aceitável como uma defesa contra a inveja, já que dá origem a muito menos culpa... Outras formas de defesa são a desvalorização do objeto, a violenta possessividade e a provocação de inveja em outras pessoas.

Winnicott não estava sozinho como um analista que foi afastado do movimento kleiniano por não aceitar sem reservas as suas idéias. Kurt cita também Rickman, a própria Riviére, Eva Rosenfeld e Clifford Scott. Para ela Bion foi um caso intermediário pois, embora tivesse desenvolvido conceitos pessoais muito além dos de Klein, se apresentava sempre como um seguidor de suas idéias em qualquer parte do mundo que viajasse. Para mim, seus conhecimentos sobre memória, desejo e conhecimento, sobre a cesura e sobre a questão da verdade, se equiparam em valor aos postulados kleinianos clássicos.

Kurt também se referiu ao “incidente” entre Klein, Winnicott e Margareth Little quando esta apresentou o seu famoso trabalho “K – a reação total do analista às necessidades do paciente” no qual foi mesmo além de Heimann. Segundo ela, Little em seus trabalhos sobre contransferência, dizia que esta era uma parte essencial de toda a análise, uma ferramenta tão positiva (e útil) quanto a transferência. Na discussão que se seguiu à apresentação do trabalho, Klein fez publicamente este comentário (já repetido por ela outras vezes) de que “Tudo o que este artigo mostra é que a Drª Little precisa de mais análise”. Winnicott, que tinha sido analista de Little e presidia a sessão intercedeu irritado dizendo que Klein não tinha o direito de dizer aquilo. E acrescentou: “Todos nós precisamos de mais análise. Ninguém consegue ter mais do que certa quantidade e o mesmo poderia ser dito de qualquer pessoa.”

Um tema longamente abordado por Kurt é a análise de Claire, a segunda esposa de Winnicott, com Klein. Claire que era assistente social e psicanalista ficou muito impressionada com o artigo de Klein sobre o luto e há muito queria uma análise kleiniana. Disse isto ao marido e comentou: “Acho que ela é dura o bastante para mim”. Winnicott já havia dito para ela: “Acho que ela já não me considera mais um kleiniano”. No entanto, acrescenta Kurt, ele ainda a tinha como um gênio.

Coloca Kurt: “Esta análise foi um extraordinário duelo de vontades e em determinado ponto Winnicott disse à esposa que não conseguia enxergar um fim previsível para ela: ‘Você vai matar Melanie ou então ela vai matar você’. Claire se recorda dos traços positivos de Klein: uma fantástica memória para detalhes; dava ao paciente uma sensação de força por trás dele. Porém, a situação era muito impessoal: Klein não a cumprimentava, nem se despedia dela, Claire a achava uma excelente teórica, mas não clínica: ‘Ela encaixava a própria teoria naquilo que o paciente apresentava a ela’. Também havia um total descaso em relação ao fator ambiental: ‘Não adianta você falar sobre sua mãe; não podemos fazer nada a este respeito agora”.

“Claire achava que a situação analítica era muito difícil para Klein, aceitar amor e gratidão, e ela sempre enfatizava o lado destrutivo, de modo que os atos positivos eram interpretados como um disfarce para o ódio”. Apenas uma vez Claire sentiu que havia tocado em suas cordas sensíveis, num dia em que haviam belas tulipas brancas e vermelhas no consultório. Claire intuiu que era o dia do seu aniversário. E disse: “Mandarei flores vermelhas e brancas como estas quando a Srª morrer”. E, apesar de sua brutal ambivalência, Klein se comoveu e nem conseguiu responder.

Durante a análise de Claire, Melanie Klein faleceu. Claire passou a fazer análise com Lois Munro, de quem veio a falar sempre elogiosamente. Comenta Kurt: “Relembrando o passado, Claire Winnicott achou que tinha cometido um grande erro ao procurar Klein para fazer análise, sobretudo porque isto colocou seu marido numa posição embaraçosa, embora ele não tivesse feito nada para dissuadi-la...” É difícil não levantar a conjectura de que tanto Winnicott quanto Klein, por motivos conscientes e inconscientes, estavam usando-a como um pretexto... De vez em quando Winnicott indagava sobre a análise: "Ela menciona sexo alguma vez?” “Não”. “Alguma vez ela mencionou o Complexo de Édipo?” “Não”. A esposa lembra-se dele afirmando: “É por isso que ela não sabe nada a este respeito!”, caracterizando o lado negativo de sua relação com Klein, o seu ciúme, a sua rivalidade com ela.

Comentou Claire, no final da análise: “Eu uso as idéias dela o tempo todo, do meu jeito”. Indago: será uma tentativa falso-self de reconhecimento? Todavia, diga-se, Claire foi sempre uma pessoa verdadeira, como Winnicott. Talvez daí um dos segredos do sucesso deste casamento.

Winnicott e Klein: Novas Visões

Em um recente trabalho Joseph Aguayo, de Los Angeles, reestuda o cisma Klein x Winnicott e apresenta uma interessante contribuição de Klein, não publicada. Trata-se de um trabalho datilografado de 200 páginas no qual ela relata o relacionamento do seu primeiro neto com os pais, sendo a mãe sua filha. É um relato minucioso cobrindo desde os quatro meses aos dois anos da criança, pioneiro mesmo sobre a observação da relação de um menino com seu ambiente: mãe, pai, babá e ela mesma como uma avó participante e interessada. O relato é centrado nas reações da criança ao afastamento dos pais por ocasião da Segunda Grande Guerra. É um relato fluente, agradável, sensível, diferente mesmo de muitos trabalhos de Klein, escritos numa linguagem seca e pouco atraente. A criança manipula duplas de objetos para dramatizar os efeitos da separação dos pais querendo, sobretudo uni-los novamente, pronunciando seus nomes. Com isto, escreve o autor, ela nos mostra como era sensível a percepção das influências ambientais no psiquismo de uma criança.

A questão é porque Melanie Klein, mostrando-se tão sensível a percepção da realidade externa sobre a conduta de uma criança não incluía isto no seu trabalho clínico? Não seria, portanto, uma questão de temperamento, como insinuou Winnincott.

O trabalho de Aguayo é importante por deixar claro que não havia em Klein um bloqueio de temperamento em ver os efeitos da realidade externa, como sugeria Winnicott. Seria então uma questão de usar estas percepções ou não. Para Aguayo isto se deveria a uma não aceitação das “descobertas” de Winnicott (sendo ele o arauto da realidade externa) por serem muito contrastantes com os referenciais kleinianos e, nos casos de modificações do setting, mesmo inaceitáveis, para estes. Vemos aqui mais uma manifestação de agressividade (o “bloqueio”) de rivalidade de Winnicott para com Klein, discordante de sua habitual idealização e mesmo subserviência diante desta.

O autor historia a dificuldade progressiva de Winnicott em ser aceito pelo movimento kleinianno a luz de cinco etapas, que caracterizam a sua evolução como psicanalista:

Período Freudiano – de 1923 a 1935

Período Kleiniano – de 1935 a 1946

Período de gestação do ambiente materno – de 1941 a 1946

Elaboração teórica de uma visão analítica diferente de Klein – de 1946 a 1951

Observações clínicas diferenciadas – de 1952 a 1971

No primeiro período, Winnicott publicou um livro dirigido aos clínicos no qual se podia ver a influência do inconsciente na curiosidade infantil, na rivalidade entre irmãos, no impacto retardado de um trauma. Portanto, visões freudianas.

No segundo período, que eu denominei de “lua de mel com Melanie Klein”, Aguayo refere-se ao trabalho sobre “A defesa maníaca”, um dos temas preferidos de Klein, enfatizando a onipotência e a negação como uma defesa contra a depressão. Também como uma fuga, na mesma linha, do contato com um mundo interno pleno de objetos moribundos (o problema do luto). Quanto ao famoso trabalho como o jogo da espátula Aguayo também o vê como pleno de concepções kleinianas como a importância da atuação de fatores super-egóicos (super-ego precoce) na fase de excitação e na visão da própria espátula como um seio apetitoso.

Mas, escreve Aguayo, foi fundamental para Winnicott elaborar suas teorias sobre a provisão ambiental (e suas patologias) bem como a sua experiência de durante a guerra ter assistido mães e crianças evacuadas dos seus lares, num trabalho conjunto que começou com John Bowlby, no qual ele supervisionou 256 crianças (isto é, famílias). Foi quando Winnicott sentiu os efeitos diretos das carências maternas nos filhos e a relação disto com o que chamou de tendência anti-social e com a própria delinquência.

Em 1940 ele pediu a Klein para ajudá-lo na elaboração de um trabalho sobre os efeitos da evacuação de crianças dos seus lares e Klein escreveu que os próprios pais poderiam ficar ansiosos sobre como os seus filhos perceberiam as normas dos seus próprios lares depois que estes voltassem, mostrando como ela estava consciente destas questões sociais.

Várias conclusões tirou Winnicott desta experiência: os fatores mais importantes eram a idade da criança e o tipo de ambiente familiar de origem; as crianças mais saudáveis tinham saudades do lar ou desenvolviam depressões enquanto as mais perturbadas apresentavam atitudes anti-sociais: progressivamente a agressividade das crianças resultava de que estas não toleravam sentir as coisas por muito tempo internamente e portanto tinham que expeli-las para fora.

Depois da guerra Winnicott tentou conceitualizar estas experiências ainda de uma maneira kleiniana ao referir-se a uma posição pré-depressiva que aconteceria durante o primeiro ano de vida. Klein, às voltas com o trabalho de Fairbain, que se chocava frontalmente com o dela, não se pronunciou sobre isto, mas enfatizou os aspectos do trabalho de Winnicott que se localizavam mais na posição esquizoparanóide que nos atributos reais da mãe.

Àquela altura, Winnicott já se referia à qualidade do cuidado materno – calor, contato e suavidade – e não mais apenas à experiência oral em torno da qual tudo se passava, segundo Klein.

A criação do middle-group deu a Winnicott uma enorme força para continuar pesquisando e levar seus resultados à British Society. Ele agora tinha um grupo de respeitados psicanalistas que apoiavam suas idéias e as compartilhavam. Deste modo, enfatizando o que cada vez via mais em sua prática de pediatra e psicanalista, ele chegava a enfatizar que as queixas somáticas de uma criança eram frequentemente expressões da hipocondria da mãe.

Escreve Aguayo que enquanto Klein estava às voltas com a experiência subjetiva da criança em torno dos instintos de vida e de morte, Winnicott estudava a adaptação da criança em função da qualidade do cuidado materno recebido.

Por outro lado, acrescento, foi um impacto na sociedade a apresentação de “Desenvolvimento Emocional Primitivo” em 1945, quando Winnicott introduz as suas noções próprias do que chamou de integração, não integração, desintegração, personalização e adaptação à realidade, trazendo ainda um conceito inteiramente novo de dissociação em relação às noções de Klein. Mais ainda, neste trabalho, a compreensão dos impingments maternos, uma descrição que mais tarde o imortalizaria.

Diga-se também, à guisa da verdade, que Winnicott nunca caiu no gosto dos kleinianos. Segundo Kurt, Klein praticamente nunca o citou. Ele só foi citado em poucas expressivas e eventuais notas de pé de página por Segal, Rosenfeld, Joseph, Bion e Riviere, principais discípulos de Klein.

Aguayo também dá ênfase à publicação do trabalho de 1947 sobre “Ódio na contratransferência” que conferiu a Winnicott o título de um dos maiores trabalhos analíticos de todos os tempos, conforme seleção realizada pela IPA, no qual, muito do contrário da pretendida neutralidade kleiniana a todo custo, ele fala do ódio justificado do analista diante de um paciente psicótico e escreve que uma análise só pode se dar por completa quando o paciente puder ouvir e compreender algo sobre as qualidades negativas de seu analista. É neste trabalho que Winnicott diz, irreverentemente, que foi um dia maravilhoso quando ele pode dizer a um paciente obsessivo que ele foi abominável para ele e para seus amigos, durante um longo tempo.

Ao mesmo tempo, demonstrando que ele não idealizava simplesmente a figura da mãe, afirma neste trabalho que esta odeia o filho antes mesmo desse nascer, acrescento, Winnicott foi deixando cada vez mais de lado a ênfase na destrutividade infantil de Klein à medida que elaborou sua própria teoria sobre a agressividade que, nos seus primórdios, é sinônimo de motilidade. Assim, ele tirou muito da ênfase na agressividade como um fenômeno inato e deixou de se referir ao sadismo oral como está nos seus primeiros trabalhos. Como consequência de tudo isto, deu cada vez menos importância à análise da transferência negativa baseada na agressividade do paciente, ponto vital na teoria de Klein.

Como afirma Aguayo, o relato da análise com Little deve ter sido outro duro golpe desfechado por Winnicott no ideal de neutralidade dos kleinianos no qual ele tantas vezes se permitiu quebrar o setting para atender as necessidades regressivas do paciente criando o conceito de regressão a dependência, fundamental ao desenvolvimento posterior de suas idéias. Neste trabalho, Aguayo também se refere a um tema que vem sendo muito debatido ultimamente nos círculos winnicottianos: a análise de Masud Khan com Winnicott . Aqui, a meu ver, trata-se de uma situação muito diferente das análises de Winnicott, com Little e com Guntrip, esta marcada pela beleza e pela sintonia. Winnicott se permitia dizer que lhe era muito mais gratificante fazer análise propriamente com ele do que com o paciente “chato” que o antecedia, ele também analista. Foram acima de tudo análises bem sucedidas. As análises de Khan, ao contrário, terminaram com ele fazendo sérios acting outs com membros da sociedade e com seus próprios pacientes. Parece óbvio que Winnicott deixou-se enganar pelos altos dotes intelectuais de Khan e não analisou adequadamente seu narcisismo, sua arrogância e seus traços psicopáticos. Não foram assim apenas erros técnicos que aconteceram – ter permitido que Khan se tornasse seu editor, por exemplo – foram erros da própria pessoa de Winnicott, dos seus aspectos não suficientemente analisados nas duas experiências de divã que conheceu.

Podemos tentar fazer um paralelo entre a experiência de Winnicott com o menino anti-social de 10 anos que ele adotou, relatado em “Ódio na contratransferência” e as suas vivências com Khan.

Em ambas as situações, de pessoas que poderíamos chamar de casos difíceis, havia o desejo de Winnicott de perfilhá-los em situações muito complicadas, cabendo a meu ver a Khan o título de filho intelectual, brilhante e que zelava mesmo sobre as posses científicas do pai. Em ambas as condições, intensas falhas contratransferenciais de Winnicott, na vigência mesmo da feitura de um “contrato” impossível de ser cumprido.

Escreve Forlenza Neto sobre as influências de Winnicott no modo de analisar dos kleinianos:

“Embora alguns neguem, a influência winnicottiana se faz sentir entre os kleinianos. Assim, Betty Joseph em entrevista ao Id, reconhece que “parecia dar interpretações mais para si do que para os pacientes no seu trabalho“. No seu trabalho “A transferência e a situação total”, vemos como dá mais importância ao clima total da situação transferencial para, a partir daí, dar suas interpretações. A influência fica mais clara em Rosenfeld em seu livro “Impasse e Interpretação”, onde fala de pacientes narcísicos de “pele grossa” e “pele fina”, estes (últimos) necessitando, por parte do analista, de maior cautela nas formulações interpretativas. Em alguns trechos do livro chega a preconizar que, embora possa compreender o material do paciente, principalmente quando este usa identificações projetivas, o analista deve se abster de interpretar por algum tempo para evitar dar a impressão de rejeitar as partes projetadas do paciente que, ao mesmo tempo, poderia sentir como rejeição a si próprio.

E, continua Rosenfeed, citado por Forlenza: “É inevitável que a inveja surja no desenvolvimento humano e que a criança ou o paciente em análise, sinta-se algumas vezes pequeno ou inferior. Tenho particularmente em mente situações em que a criança ou o paciente, sente-se rebaixado e pode, de fato, ter sido rebaixado pelos pais ou por outras crianças ou, na análise, pelo analista. Em minha experiência, é quando o paciente se sente ajudado na análise e sente que tem algum espaço para pensar e crescer que a inveja gradualmente diminui. Por estas razões, as interpretações da inveja não devem ser repetidas com demasiada freqüência... uma ênfase excessiva sobre a interpretação da inveja ou a valorização excessiva das contribuições do analista – como que comparadas - são causas frequentes de impasse”.

Forlenza nos traz modificações de técnica introduzidas por certos analistas kleinianos como derivadas das contribuições de Winnicott, mas não sabemos se assim o foi ou se isto decorreu de uma maior conscientização do movimento kleiniano como um todo, nas últimas décadas, tornando-se um grupo mais humanitário – e portanto menos dogmático – podemos dizer.

Entre as várias discordâncias de Winnicott com Klein estão às raízes da destrutividade humana. Ele nunca aceitou o conceito de instinto de morte (de Freud que Klein perfilhou) e considerava tal conceito uma aplicação da teoria religiosa do pecado capital. Também não via a inveja como um instinto em si. E considerava a agressividade como um desenvolvimento da motilidade, ligado a sua contenção e as inevitáveis frustrações.

Em “O Ser e o Viver”, recordo que em “Um enfoque pessoal da teoria kleiniana” Winnicott escreveu: “Trabalhando de acordo com as linhas de Klein, se chega a uma compreensão do complexo estágio do desenvolvimento que Klein denominava posição depressiva. Acho este um nome pouco apropriado mas é verdade que clinicamente, em tratamentos analíticos, chegar a esta posição envolve ter o paciente deprimido. Aqui estar deprimido é uma conquista e implica alto grau de integração pessoal e uma aceitação da responsabilidade por toda a destrutividade que está ligada a viver, a vida instintiva e a raiva, a frustração. A chegada a este estágio está associada com idéias de restituição e reparação, e na verdade o ser humano não pode aceitar as idéias destrutivas e agressivas em sua própria natureza sem a experiência da reparação... Esta é a contribuição mais importante de Klein, na minha opinião, e acho que se iguala ao conceito de Freud de Complexo de Édipo... O principal ingrediente é o grau de organização e força do ego do bebê e da criança pequena e por este motivo é difícil colocar a posição depressiva antes de 8-9 meses ou de um ano.

Como eu também coloco em meu livro “O Ser e o Viver: uma visão da obra de Winnicott”, ele revelou discordâncias e fez reparos e contribuições ao conceito de posição depressiva que são fundamentais: “Por um lado, ele vinculou a posição depressiva mais ao que chamou de concern (consideração), do que a culpa propriamente dita, criando um termo e um conceito que foram, inclusive, depois adotados pelos próprios seguidores de Klein”.

“Por outro lado, como nos mostra Eigen, Winnicott, através dos conceitos de objetos transicionais e de uso de um objeto, introduziu – como Bion e Lacan, o conceito de fé em psicanálise, dano um novo sentido à forma como a criança atinge, em condições normais, a posição depressiva”...

“Recordando a alegria com que a criança se lança à descoberta dos fenômenos transicionais e o conceito de uso de um objeto, escreve Eigen: ‘O afeto central desta última assertativa é a alegria, não a culpa. A criança sente-se gratificada porque ela pode amar e destruir o objeto e o objeto sobrevive. O sentido é que a integridade é realmente possível sem comprometer o self e o outro. O sujeito aprecia o outro como o outro, por razões intrínsecas, sem (auto)dissociação que a culpa pode ocasionar no tipo de unidade e destruição que Winnicott descreve em suas últimas considerações sobre o uso de um objeto. O amor é vivo e suficientemente forte para usar a criatividade criativamente, tornando a culpa supérflua.”

E, continuo dizendo que Winnicott, na medida em que cresceu, pode fazer importantes adendos e contribuições à Escola Kleiniana, sem que esta fizesse o mesmo com as suas idéias, sequer o citando. Assim, “Em 1935 ele já chamou a defesa maníaca de agitação suspensa e mostrou que em certas crianças isto era o motor de todo um viver inquieto e agitado (e sem criatividade, ajunto agora), aparentemente ansioso, porém sendo a ansiedade o resultado desta forma de viver que não entra em conflito, nem em depressão. “Quanto à dissociação (ao invés de um mecanismo de defesa patológico) ele enfocou este aspecto como próprio da condição humana deste seus primórdios, representado pela oposição vigília x dormir”. E igualmente estudou várias formas de dissociação, presentes na saúde mental e na doença, inclusive a dissociação entre verdade e falso self...”

E arremato dizendo que ele recebeu de Klein as idéias mais valiosas em sua formação analítica mas divergiu dela em questões fundamentais ao considerar que: uma maternagem suficientemente boa evitaria o uso de mecanismos dissociativos e de sentidos persecutórios por parte do bebê; se não houvessem estas (boas) condições instalar-se-iam as angústias primitivas e a sensação de caos, ao invés do splitting do objeto em bom e mau; o uso deste mecanismo, dos processos de introjeção e projeção e o advento da posição depressiva dar-se-iam bem além do postulado por Klein por depender de uma integração do ego que só se faria bem depois.”

“Aqui vemos uma divergência básica entre Winnicott e Klein. Enquanto ela postulou que a criança já nasce com um ego em formação, para Winnicott este só se formaria mais adiante, ao longo das pugnas e integrações com o Id, pelas intervenções de uma mãe suficientemente boa, pela tolerância crescente às experiências de frustração, pela interferência positiva dos objetos e fenômenos transicionais, etc. Este ponto de vista, de um nascimento egóico a posteriori, é também o defendido pelos demais teóricos do desenvolvimento contemporâneo de Winnicott: Spitz, Bowlby, Anna Freud e Margareth Mahler.

Todavia, mais recentemente, diante das experiências pioneiras de Alessandra Piontelli, há que se parar para pensar se Klein não tinha razão em suas postulações a este respeito. Esta psicanalista italiana vem há cerca de 30 anos estudando fetos humanos em desenvolvimento através da ultrassonografia. Suas descrições parecem-nos assombrosas de fetos verdadeiramente vivos, móveis, determinados, coerentes, que nos faz de todo pensar numa instância egóica em desenvolvimento, isto é, compatível com as teorias de Klein.

Uma questão fundamental, pouco abordada, diz respeito a técnica, basicamente a duas questões: o setting e a atividade interpretativa.

Quanto ao setting, enquanto os kleinianos defendem a aplicação do mesmo setting, neutro, sem qualquer exposição emocional do terapeuta – e, portanto, rígido - Winnicot postula um setting flexível, maleável, adaptado às necessidades do paciente, principalmente diante de casos difíceis, de pacientes borderlines, de pouca criatividade, com tendências antissociais, esquizóides, falso-selves ou mesmo psicóticos. Tal manuseio do setting também se f az necessário durante os episódios regressivos, como foi o caso de Little, comentado por Aguayo. Tudo isto funcionando com o analista como holding, sensível, empático, não intrusivo, como uma mãe suficientemente boa, aliando passado e presente, teoria e técnica.

Não menos importante é o problema da interpretação. Enquanto os kleinianos advogavam interpretações precoces e profundas, Winnicott propugnava por interpretações graduais, sempre com a participação do paciente, sendo para ele o cume do processo analítico que o paciente descobrisse suas próprias interpretações. Assim, ele valorizava a todo o momento a aliança terapêutica, embora não usasse esta expressão. Deste modo, propugnava um trabalho da periferia para o centro, enquanto Klein propunha um enfoque diretamente ao centro dos conflitos, isto é, ao mais profundo.

Quanto aos conteúdos, também bastante divergentes. Para Klein, o mais profundo e o mais precoce, isto é, os instintos, a inveja, a agressividade, as identificações projetivas. Já Winnicott, nos exemplos que deixou este, dava interpretações sobre a agressividade mas sobretudo privilegiava a dialética verdade x falsidade, os aspectos do desenvolvimento, as relações objetais, a criatividade, a questão da autonomia, os potenciais regressivos, a capacidade de estar só, os paradoxos. No caso dos pacientes com grandes componentes falso-selves, ele propugnava, porém interpretações penetrantes e mobilizadoras – semelhantes às dos kleinianos – “você está vivo, mas você ainda não viveu”, “você é um homem, mas nada sabe de masculinidade”, etc...

Penso mesmo que o uso da empatia por Winnincott, o seu cuidado em interpretar, em não cometer iatrogenias, foi uma reação à forma kleiniana de interpretar, no seu afan de em pouco tempo atingir as camadas mais profundas do paciente.

Em “O Brincar e a Realidade”, sua obra póstuma mais revolucionária, ele chega mesmo a escrever: “Também com freqüência alivio a mente, anotando interpretações que, na realidade retenho para mim. Minha recompensa por essa retenção surge quando a própria paciente faz a interpretação, uma hora ou duas depois, talvez...

... Minha descrição equivale a um pedido a todo terapeuta para que permita a manifestação da capacidade que o paciente tem de brincar, isto é, de ser criativo no trabalho analítico. A criatividade do paciente pode ser facilmente frustrada por um terapeuta que saiba demais. Naturalmente, não importa, na realidade, o quanto o terapeuta saiba desde que ele possa ocultar este conhecimento ou abster-se de anunciar o que sabe”.

Este legado de Winnicott, a busca da espontaneidade, da criatividade e do verdadeiro self do paciente, no jogo interpretativo contrasta vivamente com a visão kleiniana do processo terapêutico da argucia, inteligência e penetrabilidade do analista produzindo interpretações profundas e completas para tornar o inconsciente consciente realizando importantes insights terapêuticos. Todavia, esta visão mais radical da forma kleiniana de trabalho está se modificando, conforme o depoimento de Rosenfeld acima citado.

Obviamente, Winnicott e Klein utilizavam uma abordagem transferencial do paciente, porém enquanto Klein propunha interpretações apenas transferenciais, Winnicott, como se despreende dos seus exemplos com adultos e crianças, dava também interpretações para-transferenciais ou mesmo não-transferenciais.

Assim foi o encontro de Klein e Winnicott. Como mentes criativas eles se aproximaram e por esta mesma razão fizeram observações diferentes e se afastaram. Todavia, o seu encontro e a sua cisma estão sempre a nos ensinar e a nos fascinar. E, podemos mesmo indagar, o que seria da vida sem as discordâncias?


BIBLIOGRAFIA

AGUAYO, J. – Reassessing the clinical ativity between Melanie Klein and D. W. Winnicott (1935-1951). Klein’s unpublished “Notes on baby” in historical context, Int. J. Psychoanalisis. 83:1133, 2002.

BULACK, V. S. – De Melanie Klein a Winnicott: reflexões sobre o conceito de “Holding” e suas consequências para o manejo de pacientes difíceis. Biblioteca da Sociedade Brasileira de Psicanálise do RJ – mimeografado.

Carta de Winnicott a Melanie Klein. Revista Brasileira de Psicanálise, Vol 24, nº 2.

DE PAOLA, H. B – Comentários sobre o artigo “De Melanie Klein a Winnicott”, de autoria de Vera S. Bulack. Biblioteca da SBPRJ – mimeografado.

FORLENZA NETO, O.- Winnicott e Melanie Klein, em “Winnicott: 24 anos depois”, Mello Filho, J. Melgaço, A. L., RJ, Revinter, 1975.

GROSSKURT, P. – Melanie Klein. RJ, Imago, 1992.

KAHR, B. – Donald W. Winnicott: retrato e biografia. Editorial Biblioteca Madri, Nueva, 1999.

MELLO FILHO, J. – Winnicott e Melanie Klein, em “O Ser e o Viver: introdução à obra de Winnicott”. SP, Casa do Psicólogo, 2000.

OGDEN, T. H. – The dialectically constituted decentred subjet of psychoanalysis II. The contributions of Klein and Winnicott, Int. J. Psychoanalysis, 73:613, 1992.

PHILLIPS, A. – Winnicott. Fontana Moderna Masters, 1988.

RODMAN, R. – The spontaneous gesture. London, Harvard Univ. Press, 1987.

WINNICOTT, D. W. – O brincar e a realidade. RJ, Imago, 1975.

WINNICOTT, D. W. – Uma contribuição pessoal à teoria kleiniana, em “O ambiente e os processos de maturação”. Porto Alegre, Artes Médicas, 1982.


[1] Registre-se a “coincidência” de a mãe de Winnicott e Melanie Klein terem sido ambas pessoas com um forte componente depressivo.

[2] Todavia a biógrafa de Klein, Gross Kurt, registra que ela tinha críticas quanto ao resultado da análise de Eric com Winnicott.

[3] Segundo Kahr, Winnicott pode ter recebido esta indicação como mero prêmio de consolação.

[4] Curioso este tipo de crítica. Inicialmente que Winnicott é essencialmente objetivo sobre a relação mãe-bebê e por isso só vê o ambiente e não a subjetividade kleiniana sobre a relação. Depois, que ele é essencialmente subjetivo e por isso não vê a realidade da relação.

[5] Não somente a mente infantil, porém o soma, o todo da criança, como está óbvio nos seus trabalhos sobre pediatria e nos seus escritos sobre psicossomática.

[6] Sobre isto comenta Gross Kurt: “o problema de Klein com Winnicott era de que ele era independente demais e provavelmente não discutia os artigos com ela de antemão. Ao que tudo indica ela achava difícil tolerar uma situação em que ele se considerava em pé de igualdade com ela.

[7] Aqui mesmo no Rio eu tive várias supervisões com ela já tomada pelo enfisema que a levou, porém cheia de vida, de conhecimento e de amor para dar.

[8] Não teria este sido publicado para não expor questões familiares, conjectura Aguayo.

[9] Vemos aqui Winnicott colocar a posição depressiva no final do primeiro ano de vida enquanto Klein a colocou muito precocemente, entre os 4 e 6 meses. Por outro lado, ele valorizou o conceito de reparação como o mais importante de Klein, se antecipando em muitas décadas ao que a cultura atual coloca como fundamental o “dar a volta por cima”.

[10] Traduzido entre nós por preocupação, o que não é exatamente o mesmo.

[11] Aqui vemos finalmente o exemplo de um conceito de Winnicott que foi aceito por kleinianos.

[12] Este conceito vem sendo cada vez mais estudado e enfatizado pelos seguidores de Winnicott mostrando-se assim como um dos mais férteis e inovadores que ele deixou após sua morte.

[13] Vemos aqui que eu discordo de Aguayo e considero este primeiro trabalho de um Winnicott “kleiniano” já pleno de contribuições originais.

[14] Dissociação que faz parte da própria vida, presente nos pares antitéticos de Freud e na oposição entre sol e lua, claro e escuro, fome e saciedade, dor e prazer, som e silêncio, etc.

[15] Diga-se, a bem da verdade, que há progressivamente um número maior de kleinianos trabalhando de um modo mais flexível. Porém, esta era a técnica na época do confronto entre modos diferentes de se trabalhar.

[16] Winnicott aqui se referia a uma paciente do sexo feminino, esquizóide, que tinha uma sessão semanal de três .horas de duração.

[17] Acho muito importante e sempre possibilitar que o paciente venha a descobrir suas próprias int., porém mais ainda nos casos difíceis para os quais Winnicott propugnava análises especiais. Também uso esta técnica no trabalho com grupos no qual cada paciente descobre uma int ou uma parte da int cabendo geralmente a mim enfeixar a gestalt grupal.