sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PARA QUE SERVE O DIVÃ?



A grande revolução freudiana começou no dia em que ele resolveu escutar a palavra da histérica. Indo de encontro a toda uma tradição médica que fazia ciência sobre a histeria sem dar ouvidos ao que as histéricas diziam, Freud decidiu, impelido por uma de suas pacientes, deixar que elas falassem, convencido de que era por aí que se produziria o verdadeiro saber sobre a histeria.

Assim, o lugar de produção do saber foi centrado no sujeito objeto do próprio saber. Em outras palavras, isto significava: dar a palavra à histérica, pois somente ela era detentora de um saber ignorado por todos, inclusive por ela mesma.

E assim, o discurso da histérica coincidiu com o nascimento da psicanálise, a partir do momento em que o discurso de Freud silenciou e mudou de natureza, antes de ser formulado como um discurso científico. A grande inovação da psicanálise consiste, portanto, não simplesmente em usar a fala como instrumento de terapia.

Afinal,
outras formas de tratamento, antes e depois da psicanálise, têm na linguagem seu instrumento de mediação terapêutica.

O próprio
Freud, antes de inventar a psicanálise, trabalhou com a hipnose e com a sugestão, formas de psicoterapia onde a palavra tem uma função essencial. O shamanismo, igualmente, faz da palavra a condição indispensável para o processo da cura.

Dar a palavra ao outro, simplesmente escutá-lo, sem ser seu mestre, modelo ou tutor, eis a idéia, simples e genial ao mesmo tempo, que possibilitou a Freud a descoberta do inconsciente e de uma nova forma de terapia.

Depois de Freud surgiram muitas outras formas de terapia,
todas mais ou menos devedoras à psicanálise, algumas também fazendo uso somente da palavra. Onde está então a originalidade e a especificidade da técnica psicanalítica?

Em primeiro lugar,
convém ressaltar aqui a regra básica, fundamental, "a única, aliás", diz Freud, a ser seguida pelo paciente: dizer tudo, livremente, sem nenhuma escolha ou "parti pris", sem nenhuma censura, seja ela de ordem moral, ética, religiosa, política ou intelectual. É a famosa regra da livre associação.

Este "convite"
à palavra solta, é uma ordem, à qual o próprio Freud se julgava impedido de dispensá-la. A um de seus clientes que tinha dificuldade em falar sobre algo que o atormentava, e que lhe pedia para dispensá-lo deste sofrimento, Freud respondeu-lhe dizendo que não tinha como conceder-lhe algo que estava "além de [seu] poder"...

É preciso, pois, dizer tudo. E por que? Porque a
experiência clínica lhe ensinou que as resistências aos desejos inconscientes só podem ser vencidas através deste expediente. A livre associação cria as condições para a interpretação, mediante a qual o sujeito pode ter acesso ao seu inconsciente, com seus desejos, fantasias e recalques. Esta interpretação não é de natureza compreensiva, tal como acontece em outras formas de psicoterapias.

Ela condiciona um processo chamado de perlaboração,
O poder da palavra 2 mediante o qual os conteúdos inconscientes, os conflitos, são "reorganizados" na vida psíquica do sujeito, possibilitando-lhe uma nova maneira de lidar com seus desejos e, portanto, uma nova postura intersubjetiva. Mas a condição indispensável para uma verdadeira interpretação psicanalítica reside naquilo que Freud chamou de "regra da abstinência".

Em que consiste esta regra? Da parte do
cliente, significa que ele pode tudo dizer, mas não pode fazer. Da parte do analista, significa que ele não só não pode fazer, atuar, mas deve abster-se de usar a sugestão como instrumento de ação terapêutica; deve abster-se de se colocar como modelo para o cliente; deve abster-se de impor seus pontos de vistas, ainda que a título de orientação; deve abster-se, enfim, de considerar, na sua escuta, a realidade concreta como um dado que se esgota em si mesmo. Isto porque a realidade, sobre a qual o trabalho analítico incide, é a realidade interna do sujeito, seu mundo psíquico.

Esta
realidade interna é estruturada, para a psicanálise, em torno do Complexo de Édipo, momento decisivo na dialética constitutiva do sujeito e de sua realidade social, da subjetividade e da objetividade, e cujos efeitos são essencialmente inconscientes. É aí, neste registro específico, que a psicanálise, enquanto terapia, atua.

E nisto ela se diferencia das psicoterapias.
Esta articulação entre a abstinência e a interpretação implica um novo dado e uma nova forma de trabalho específica à psicanálise: o trabalho da transferência.

A transferência,
enquanto repetição de formas de sentir ou de atuar próprias a desejos arcaicos, é a atualização, na relação terapêutica, de tipos de relação que mais têm a ver com o passado do que com o presente do sujeito.

A figura do analista torna-se assim o polo
privilegiado no qual se cristaliza este tipo de relação. Considerar a transferência, e o que ela significa de resistência ao processo terapêutico, como um instrumento essencial de interpretação, constitui algo também específico à psicanálise.

A idéia de análise vem, naturalmente, associada ao divã, peça
de mobiliário indispensável, enquanto norma padronizada, em qualquer consultório psicanalítico.

Embora a associação proceda,
não se segue que basta colocar um divã no consultório para que alguém se autorize como analista. Embora Freud tenha introduzido esta prática por razões históricas ("resto da hipnose", diz ele) e pessoais (não agüentava ficar muito tempo encarando os clientes face a face), ele enfatiza a sua importância enquanto meio de preservar e isolar a transferência. Ou seja: há, no ato de alguém ir para o divã, algo de estruturalmente analítico. É também uma modalidade da regra da abstinência, enquanto significa um não ao gozo pulsional na cura analítica, sobretudo para aqueles que, como sublinha Freud, pela sua própria neurose, estão sob o poder da pulsão escópica.

Por isso, ele diz: deve-se sempre recusar o
pedido do cliente para mudar de posição! Ou seja: não à reciprocidade; não ao gozo pulsional.

Aqui, tal como na regra da
abstinência, não é somente uma questão de técnica; é também uma questão de ética: existe para que o sujeito possa aparecer como O poder da palavra 3 tal - sujeito de desejo - no ato mesmo de sua palavra.

Aliás,
"divã" é um termo persa que efetivamente significa: o lugar da fala. Servia para designar a sala, guarnecida de almofadas, em que se reunia o conselho do sultão, no império otomano. Poder-se-ia perguntar para que serve a psicanálise.

Ela cura?
Qual a sua finalidade? A finalidade da análise não é, em primeiro lugar, a cura, tal como entendida no sentido tradicional. A cura, entendida como "ficar bem" de saúde, será uma conseqüência da análise, nunca seu objetivo primeiro. A análise busca a verdade do sujeito, por isso, como diz Freud, ela "baseia-se na verdade".

Esta verdade do sujeito coincide com o reconhecimento do seu
desejo, algo com que o sujeito, e somente ele, tem que se haver. Este desejo não coincide necessariamente com a demanda de cura ou de melhoria. Este projeto terapêutico de cura pode mesmo vir a ser um fator de resistência à análise... Portanto, a ética da psicanálise não é uma ética contratual ou ideal do bem-estar, do prazer, da adaptação.

É uma ética do desejo, com seu cortejo de
conflitos, contradições e sofrimentos. Somente aí o sujeito pode se encontrar como verdadeiramente livre e autônomo, senhor de sua própria história, criador de sua própria obra. O caminho pode ser árduo, mas pode ser encontrado.

Ele será sempre o da palavra, de
quem depende, como diz Guimarães Rosas, não somente o bem-estar do homem, mas sobretudo a sua descoberta de si mesmo. Afinal, ela é, diz ele, "a única porta para a eternidade".

Fonte: Luís F.G. de Andrade. João Pessoa, 28.3.1992.